quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Preocupações de um pai.


Quando fiz o meu primeiro vestibular, tinha 17 anos e morava em Serrinha, cidade do interior da Bahia. Fiz para Ciências Contábeis na UFBA em Salvador.

Sempre fiz questão de parecer auto suficiente e mostrar que podia me virar sozinha, mas meu pai fazia questão de estar comigo nos lugares, de me levar para os compromissos (incluindo ida e volta) e na época eu não achava isso nenhum pouco agradável (hoje eu sinto falta).

Como era esperado, meu pai me levou para fazer a prova da primeira fase. Me deixou na porta da sala e quando eu saí, ele estava na porta do lugar me esperando. Eu ficava um pouco constrangida, coisa de adolescente mesmo, achando que alguma amiga ou algum colega da escola pudesse me ver sendo tão protegida por ele. Mas não podia imaginar a carinha de tristeza que ele faria se eu pedisse para ir sozinha. Pra ele isso era uma satisfação, um prazer. Até hoje é assim.

Na segunda fase do vestibular aconteceu um fato engraçado. Meu pai e eu saímos um pouco atrasados em relação ao que pretendíamos, mas ainda dentro do horário estipulado. Eu ia fazer a prova na faculdade de Direito. Quando chegamos no Vale do Canela, um engarrafamento se formou e eu tive que ir andando sozinha por entre os carros parados porque o meu pai estava dirigindo. Eu não conhecia nada e sempre tive um medo enorme de estar num lugar que não conheço, sozinha. Mas ele me deu tanta força e nessa hora eu percebi que sem ele eu não teria conseguido.

Cortei o caminho pelos carros que buzinavam sem parar e via a cara de desespero de pessoas correndo como eu, contra o tempo, tentando chegar a tempo para fazer a prova. Eu corri mesmo sem saber onde ficava o local. Perguntando a um e a outro, consegui chegar faltando 10 minutos para os portões serem fechados.

Esbaforida, ainda tentando recuperar o fôlego perdido, sentei-me na cadeira e tentei relaxar, afinal de contas estava me sentindo aliviada por ter conseguido. Foi então que o fiscal começou a ler as instruções e já ia começar a entregar as provas, quando um outro rapaz que estava trabalhando na coordenação chega à porta da sala e diz:
- Bom dia! Quem é Joyce de Paula...aqui?
Meu coração disparou.
Com uma voz que quase não saiu, de tão tímida que eu era, balbuciei:
- Ãh...So...u eu... (levantando a mão como se estivesse numa sala de aula respondendo uma lista de presença).
- Você está bem, Joyce? Tudo certinho com você?
- Tudo, sim. (?)
- É que o seu pai está lá no portão, muito preocupado, querendo saber se a filha dele conseguiu chegar a tempo de fazer a prova.
Eu não sabia onde colocar o meu rosto, que estava diante de umas 50 pessoas, sendo maioria adolescentes como eu, pois com certeza ele estava vermelho como um camarão. Todos, incluindo o cara que fez o anúncio, ou seja, sem exceção, deram risada.
Depois ainda arrematou:
- Vou voltar e dizer que está tudo bem, que é para ele não se preocupar com você
Mais risos e finalmente a prova foi distribuída.
O resultado foi que, no final das contas, consegui fazer uma boa prova e passar no meu primeiro vestibular.

Esse é um dos momentos que me faz ter certeza de que não estou só e de quem eu sou.

"Pai, és meu porto seguro."

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