A gente nunca acha que vai precisar ou que vai acontecer com a gente.
Pois bem, eis que eu precisei usar dos serviços oferecidos pelo nosso governo e que a priori são classificados como básico e essencial.
No fim de semana que passou, fui à minha cidade, no interior do estado. Eu já cheguei com a garganta doendo, mas achei que não era nada demais e não me importei, a princípio. Curti os meus dias ao lado da minha família e quando foi no último dia, já rouca, a febre veio, e com ela um mal estar insuportável.
Sempre tive um excelente plano de saúde, desde que nasci.. O fato é que perdi meu plano a pouco tempo e até então, não tinha recorrido ao Serviço Único de Saúde. Nesse dia eu pude constatar o que tinha esperanças de não ser uma verdade.
Me dirigi ao Hospital que fica próximo à minha casa. Acompanhada do meu pai, que tinha estacionado o carro bem na frente da porta da emergência, fomos fitados pelo segurança e pela "enfermeira" que estavam de plantão (suponho). Nos receberam muito bem, até porque o meu pai é um homem conhecido, e no interior é normal que haja essa manifestação de "boa vontade", mas depois de questionados sobre o convênio, a conversa mudou. A enfermeira "fechou uma cara" e o coitado do segurança ficou todo descabriado. Ela mediu minha pressão e disse que estava normal. Em seguida perguntou o que eu estava sentindo. Após o relato, disse que só ia ligar pra médica que estava de plantão, porque eu havia dito que estava com dor de cabeça, pois febre, inflamação na garganta, e dores no corpo não são motivos de emergência. (Estranho!)
- Doutora, tem uma paciente aqui dizendo que está sentindo tais e tais sintomas.
(...)
- Não, doutora, é pelo SUS.
(...)
- Certo. Vou pedir que aguarde.
Depois de uns 15 minutos, a médica liga e pergunta novamente quais são os meus sintomas. A enfermeira repete-os e diz que a médica mandou avisar que era pra eu ficar de repouso e tomar o medicamento que ela iria receitar. Até aí tudo bem. Só que eu não tinha entendido direito. Só fui me dar conta do que tinha acontecido depois que a enfermeira saiu e voltou com um papel na mão.
- Aqui está. Ela disse que era pra você tomar esse antibiótico, esse xarope e se ficasse com febre, tomar esse outro aqui.
Juro que eu tive uma crise de risos. Não foi porque eu tinha achado engraçado. Foi pelo nervosismo. Eu não estava acreditando que uma profissional estava lidando com a vida de uma pessoa como se fosse qualquer coisa, como se fosse algo que "se quebrasse, teria conserto". Mas era isso sim. A médica não me examinou, não mediu a minha temperatura, pra falar a verdade ela nem viu a minha cara (assim como eu não vi a dela). E a receita saiu a jato, por sedex. Ah, eu bradei, falei sobre o direito do cidadão, sobre a obrigação do governo, sobre de onde ela achava que vinha o salário dela no final do mês, enfim! Você acha que adiantou alguma coisa? Não adiantou nada. Ela sequer saiu pra dar um boa noite.
Dessa forma, tive que me contentar e ir pra casa. Pensei em denunciar, em armar um barraco, em criar um escândalo, mas depois eu fiquei pensando, eu sou apenas uma menina contra todo esse sistema. Queria poder dizer o contrário, encarar, estufar o peito e dizer que vou lutar para que se faça justiça, para que outras pessoas que procurem não precisem passar por essa humilhação, mas não posso. Eu já sabia que o sistema funcionava de maneira precária no país, mas nas cidades do interior, a coisa é gritante! Penso ainda se o coronelismo não estaria presente nesse contexto. Porque se assim for, enquanto essa estrutura tiver força, pessoas de bem e que dependem, de certa maneira, do poder público, sofrerão.
Essa é a realidade do nosso país. Essa é a realidade caótica da saúde pública no Brasil.
Essa é a realidade do nosso país. Essa é a realidade caótica da saúde pública no Brasil.
